| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos,
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Número 24, Fevereiro / Março de 2004 | Artigo |
“Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes” (Marilena Chaui).

A filósofa Marilena Chauí e sua obra.
Marilena Chauí é filósofa e professora da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH). Escreveu inúmeros livros, dos quais utilizo de um em específico para produzir este artigo: "Convite à Filosofia", de 1994. Nele, Marilena se apóia numa filosofia humanitária para esclarecer alguns dilemas mundiais e suas especificidades brasileiras.
| Os Meios de Comunicação |
A Cidadania Liberal |
A Democracia como Ideologia |
A Sociedade Democrática |
Dificuldades para a Democracia no Brasil |
Chauí trata a Modernidade como o fim de um processo que se
inicia com a Filosofia grega: o Desencantamento do Mundo, do mito
à razão, da magia à ciência. Mas, passado
algum tempo, na sociedade pós-industrial (a partir de 1970) as
artes deixaram de ser vinculadas à Religião ou à
Nobreza e passam a uma nova servidão: do mercado capitalista e
da indústria cultural. O consumo dos produtos culturais seguem
no ritmo da fabricação em série. A arte, de
mítica passa a material de consumo rápido e fácil,
ditado por uma questão de moda volátil, mera propaganda e
publicidade. Ao se massificar (mas sem se democratizar), a arte perde
suas
três características principais:
A questão da nova "modalidade" artística passou a ser
valorizada pela exposição, pela
contemplação. Mas, com os novos patronos da arte -
empresas de produção artística -, os interesses
são voltados à fruição rápida, o que
deixa de lado todo o trabalho individual e exclusivo do artista.
Não se preocupa mais em conhecer o artista, mas sim se a arte
será aceita pelo mercado.


Como dito anteriormente, a arte não se democratizou. Afinal, a Cultura deixou de ser direito universal para se tornar privilégio de poucos. O que seria teoricamente ampliado a todos pela massificação cultural, na prática, funciona de uma maneira mais perversa:
Por outro lado, os meios de comunicação são os
responsáveis por dividir a programação em
público (e seu respectivo poder aquisitivo) e horários, o
que está intimamente ligado aos patrocinadores, que financiam
tal programação através do intervalo comercial: ou
seja, o conteúdo, a forma e o horário do programa
são nada além de uma marca do patrocinador, mera imagem
de sua empresa. O vínculo entre a verba oferecida pelos
patrocinadores às emissoras de rádio e televisão
é tão alto que tudo o que se noticia deve estar de acordo
com o que agrada aos financiadores: assim, o direito à
informação (que, em teoria, seria independente e
imparcial) desaparece, dissipa-se. A desinformação atua
por:
A substituição do mundo real por um mundo virtual, composto de retalhos e fragmentos da realidade, sem âncoras no espaço e no tempo. Esta inversão entre realidade e ficção é notável principalmente nas novelas, através de três procedimentos ideologicamente trabalhados:

Mais um detalhe importante enquanto função da mídia contemporânea na deformação de mentes e intelectos: a dispersão da atenção e a infantilização. A mídia divide a programação em blocos de sete a onze minutos, separados por intervalos comerciais. Essa divisão do tempo condiciona o espectador a concentrar sua atenção durante os sete ou onze minutos e a desconcentrá-la durante a pausa publicitária. A atenção e a concentração, a capacidade de abstração intelectual e o exercício do livre pensar foram destruídos. Enquanto isso, a mídia também infantiliza seu público, pois uma atitude declaradamente infantil é não suportar a distância temporal entre seu desejo e a satisfação deste: uma criança chora muito exatamente porque é intolerável para ela a espera para realizar seus desejos.
E, assim, a mídia vem com promessas de
gratificação instantânea. Cria o desejo ao mesmo
tempo que oferece
seus produtos (através da publicidade e da
programação) para satisfazê-los. Se um canal ou uma
estação de rádio não atraem, gira-se o dial, troca-se de canal e logo se
tem novamente desejos e produtos para satisfazê-los.
Também a programação se volta à modelos
já consagrados, ao que já
sabe-se e gosta-se, e como temos a Cultura como lazer e entretenimento,
a mídia satisfaz exatamente nossos desejos mais primitivos, por
não exigir atenção, concentração,
crítica ou reflexão. Cultura cobra paciência,
reflexão, concentração e espírito
crítico, em outras palavras, maturidade. A mídia satizfaz
por nada cobrar, a não ser que permaneçamos sempre
infantis.

Mais um de seus traços característicos é um Autoritarismo disfarçado, sob falsa aparência de Democracia. Programas de aconselhamento sempre trazem a opinião de um especialista, que ensina como cuidar dos filhos, como criar cabras, como ver um jogo de futebol, um filme, uma foto, como viver e como pensar. Mas, ao tornar o público infantil, esta postura está carregada de intimidação social, pois o espectador, dócil e passivo, não só é ausente de crítica como acaba absorvendo os hábitos "recomendados" sem qualquer reflexão, tornando-se incompetente para viver e agir sem o apoio do especialista da mídia.
Perversa. Assim é a mídia, enquanto formadora de
opinião de nosso país.

O modelo de Estado Liberal apresenta-se como uma República
Representativa, constituída dos três poderes:
Possui ainda um corpo de militares profissionais (Forças Armadas: ou seja, Exército e Polícia) e um corpo de servidores públicos (Burocratas) que são encarregados de cumprir as decisões dos três poderes perante os cidadãos. O Estado Liberal considerava inconcebível que um não-proprietário pudesse ser representante em qualquer um dos três poderes. Quando afirmava que qualquer cidadão era livre e independentes, nas entrelinhas pode-se interpretar que todos eram dependentes de suas posses, ou ainda que não eram livres quem nada possuísse. Assim, se excluíam do poder político os trabalhadores e as mulheres (ou seja, a maioria da sociedade). A idéia de contrato social (onde indivíduos isolados tornam-se multidão e esta em corpo político de cidadãos) não previa assim o direito à cidadania para todos, mas delimitava à uma classe social: a Burguesia (ou proprietários privados, como preferir).
Através de lutas sociais muito intensas, o Estado Liberal foi
forçado a se tornar uma Democracia Representativa, ampliando
assim a cidadania política plena e o sufrágio universal
(voto secreto). Ainda assim, na América Latina, os índios
não estavam incluídos em tal processo.
O Estado de Bem-Estar social foi implantado nos países capitalistas avançados do hemisfério norte com o nome de Welfare State. Surgiu durante a Guerra Fria como defesa capitalista de prevenção ao nazifacismo e à Revolução comunista, pois enquanto esplodia uma crise mundial, os sistemas acima criticavam acirradamente os princípios liberais (bases do capitalismo), fazendo com que os trabalhadores encontrassem neles contrapontos para as desigualdades do capital. Assim, o Estado de Bem-Estar social foi uma prática política para tentar corrigir os problemas econômicos e sociais inerentes à sua estrutura desigual. Mais à frente, tal postura foi implementada nos países do chamado Terceiro Mundo, para que nenhuma Revolução eclodisse, como que uma medida apaziguadora, uma reforma no Estado previnindo qualquer Revolução.
O Estado passa a intervir na economia, investindo em
indústrias estatais, subsidiando empresas privadas, controlando
taxas de juros, preços e salários. Também assume
um montante de encargos sociais: saúde, educação,
moradia, transporte, previdência social e seguro-desemprego,
além de atender a demandas da cidadania, como o sufrágio
universal. No Brasil, quem implantou tal modelo de prática
política foi o estadista Getúlio Dorneles Vargas, a
partir da década de 1930.
Os países mais fortes do bloco capitalista criaram outras
medidas para controlar suas "colônias", como o Banco Mundial para
o Desenvolvimento (BID) e o Fundo Monetário Internacional (FMI),
os quais fizeram enormes empréstimos financeiros para investir
em serviços sociais de seus interesses e em empresas estatais.
Por outro lado, com requintados serviços de espionagem e uma
fortíssima força bélica, ofereciam apoio e
inteligência militar para reprimir revoltas populares e
Revoluções, o que estimulou a proliferação
de Ditaduras e regimes autoritários, como o caso do Brasil em
1964.
E, cinicamente, no centro do discurso político capitalista,
temos a defesa da Democracia. Na verdade, os países do bloco
socialista defendiam uma Democracia Social contra as desigualdades das
Democracias Liberais, que abandona a sociedade aos interesses dos ricos
e poderosos. Enquanto isso, os Estados capitalistas usavam do discurso
da Democracia contra os totalitarismos de discursos sociais, e se
equilibrava entre a opressão e a liberdade, a Ditadura e a
Democracia. A única verdade que podemos ver entre este joguete
de bem e mal (pensamento maniqueísta) é que a Democracia
se firma como uma ferramenta ideológica que omite o que, no
fundo,
ela defende nas entrelinhas, dependendo do sistema
político-econômico.
Liberalismo e Estado de Bem-Estar social (ou social-democracia) se
diferem em relação aos direitos que defendem, mas se
asemelham por serem regimes de Lei e Ordem para garantir liberdades
individuais. Isso gera quatro condições, no
mínimo,
complicadas:
A Democracia se torna um regime político eficaz, baseado na
idéia de cidadania política organizada em partidos
políticos, manifestada no processo eleitoral, na rotatividade de
governantes e nas soluções técnicas (não
políticas) para problemas sociais. Assim, de acordo com o
economista, filósofo e sociólogo alemão Karl Marx,
a Democracia é uma ideologia política, formalista
jurídica pelo direito de cidadania. Ou seja, defende tais
direitos em meio a uma sociedade estruturada de maneira que tais
direitos inexistem para a maioriada população. Democracia
formal, e não concreta.
Na prática democrática há uma verdade que tal
ideologia deixa transparecer. Primeiro, eleições
são meramente a rotatividade de governos ou a alternância
do poder. O poder se torna um lugar vazio preenchido por representantes
periódicos, e não identificado com os ocupantes do
governo. Situação e oposição, maiorias e
minorias: a sociedade é tratada como internamente dividida
(legitimamente) e essa divisão é publicamente expressa. A
democracia, assim, é a
única forma política que legaliza e legitima o conflito.
Em segundo, igualdade e liberdade como direitos civis: ao tratar o
cidadão um sujeito de direitos, se tais direitos não
existem, é certo o direito (e o dever) de lutar por eles e
exigi-los. Temos aqui o cerne da Democracia. Direito não
é necessidade, carência ou interesse,
características individuais que são tantas quanto os
grupos sociais representados no país. Direito não
é algo particular ou específico, mas sim geral e
universal, válido para todos os indivíduos, grupos e
classes socias. Uma sociedade é realmente democrática
quando, além de eleições, partidos
políticos, três poderes, respeito à vontade da
maioria e das minorias, institui direitos.
Quando a Democracia foi inventada pelos atenienses, originalmente
defendia três direitos essenciais: igualdade, liberdade e
participação no poder:

Assim, a Democracia se distingue por ser:
Assim, temos a política democrática como o governo do
povo, pelo povo e para o povo. Entretanto, existem as classes sociais
que subdividem o povo em classes sociais antagônicas (como
definido por Marx). A sociedade democrática não esconde
suas divisões, mas as trabalha pelas instituições
e leis. Todavia, dentro do capitalismo, o conflito de interesses
é posto pela exploração de uma classe social por
outra, mesmo que, ideologicamente, se afirme que todos são
livres e iguais. Grandes obstáculos à verdadeira
Democracia. As lutas sociais nos países de capitalismo
avançado garantiram direitos e atenuaram tais dificuldades, mas
por outro lado, os
encargos destas conquistas recaíram sobre os trabalhadores dos
países do Terceiro Mundo. Coincidentemente, enquanto nos
países de capitalismo avançado se conquistavam tais
direitos, nos países do Terceiro Mundo se implantavam os Regimes
Ditatoriais.
Nos dias atuais esta situação fica mais complicada,
pois as mudanças
nos modos de produção capitalista contemporânea
adapta os mercados toda vez que surge uma crise, deixando os custos da
crise para a população economicamente mais pobre: o
Neoliberalismo implica no abandono do Estado de Bem-Estar social
(privatização) e o retorno da idéia de
autocontrole da economia pelos mercados, afastando o Estado de tais
decisões (desregulação). Soma-se a isto o
avanço dos meios de comunicação e de tecnologias
eletrônicas, como mudanças na automação da
produção e na distribuição dos produtos, o
que acarreta em desemprego em massa, movimentos racistas e
exclusão social, política e cultural. Direitos
conquistados tornam-se frágeis, pois os trabalhadores não
são mais tão necessários neste novo cenário.
Outros obstáculos à Democracia situam-se também
na questão que tange à participação
política. A partir da segunda metade do século XX, surge
um novo modelo de divisão social: dirigentes (recebem
educação científica e tecnológica) e
executantes (por não possuir conhecimentos tecnológicos
ou científicos, apenas executam tarefas, sem conhecimento das
finalidades de suas ações, considerados incompetentes e
destinados a obedecer). Desta divisão, surge a capacidade
contemporânea de quem manda e quem obedece, e deste fator temos
uma nova ideologia: a competência tcnocientífica, ou seja,
conhecimentos dão o poder de mando e direção. Com
o fortalecimento da mídia, tal ideologia invadiu à
política, de maneira que um indivíduo, para se candidatar
a algum cargo, deve ser considerado um administrador competente.
Política, assim, deixa de ser uma ação coletiva de
todo e qualquer cidadão. Além disto, para ser
"competente", deve ter recursos financeiros para estudar e adquirir
tais conhecimentos - ou seja, "competentes" são sempre da classe
economicamente dominante (o que gera interesses de classes acima de
interesses coletivos e públicos). Por último, os meios de
comunicação de massa em sua maioria estão
vinculados à grupos de interesses econômicos, o que pode
acarretar em informações transmitidas de maneira
deturpada durante e fora dos períodos eleitorais. Esta
informação é a base de que quase todos os
eleitores se utilizam para se decidirem no momento do voto.
Ainda assim, deve-se lembrar que, mesmo com todos os
obstáculos apresentados, somente em uma sociedade
democrática podemos notá-los, discuti-los e
superá-los.
Após o regime Militar, definiu-se que no Brasil implantou-se
a Democracia, pois, a partir de então, temos
eleições, partidos
políticos, divisão da República em três
poderes, liberdade de pensamento e expressão, contraposto ao
Autoritarismo (golpe de Estado, sem eleições ou partidos
políticos, o poder Executivo domina os outros dois, há
censura do pensamento e da expressão, além da
prisão de inimigos políticos). Portanto, ao contrapor as
condições do Estado brasileiro, define-se o Brasil como
uma Democracia. Mas esta visão exclui o autoritarismo social,
muito presente em nosso país. Nossa sociedade é
hierárquica, entre inferiores que obedecem e superiores que
mandam. Além disso, temos um Autoritarismo violento, baseado em
racismo, machismo, discriminação religiosa, social,
desigualdade econômica, exclusão cultural e
política. Deste modo, a prática da igualdade e da
liberdade ficam debilitadas. Desta maneira, a sociedade brasileira fica
polarizada entre carências das classes populares e os interesses
das elites dominantes, sem alcançar a esfera dos direitos,
transforma esta mesma polarização entre
despossuídos e privilegiados. E tais privilegiados são os
considerados competentes para a direção da sociedade.

Outro problema são o modelo dos partidos políticos,
que basicamente se dividem em três:

As leis brasileiras não
são compreendidas por boa parte da população, o
que as transforma em algo alheio às suas vidas.
As leis, por ser um espelho de
privilégios (de dominantes) ou
vontades (do governante), ficam longe de ser expressão de
direitos ou decisões coletivas. O Judiciário é
quase incompreensível, algo misterioso, místico, o que
faz das leis incompreensíveis e ineficientes (daí a
origem ao "jeitinho brasileiro" de transgredir normas para obter o
almejado).
De acordo com as palavras de Marilena
Chauí, "a Democracia,
no Brasil, ainda está por ser inventada".
© Revista Eletrônica de Ciências - Número 24 - Fevereiro / Março de 2004.