Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  . Número 23, Janeiro de 2004 Artigo

Sete Décadas de Conhecimento

Henrique Ferraz
Estudante de Arquitetura e Urbanismo da EESC-USP - Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo
e-mail: henriqueferraz_arqurb@yahoo.com.br

Após o término da Revolução Constitucionalista de 1932, o Governo de São Paulo, derrotado pelas tropas Federais, sentiu a necessidade de "garantir sua grandeza", desta vez pelo conhecimento e pela força de sua cultura. Com estes objetivos, foi fundada em 25 de Janeiro de 1934 a Universidade de São Paulo. Seu brasão é o registro desta filosofia: "Scientia Vinces" (do latim, "Pela ciência, vencerás"). Conheça um pouco da história da maior Universidade da América Latina.


Histórico

Logo após o término da Revolução Constitucionalista, aconteceu no Rio de Janeiro a 5ª Conferência Nacional de Educação. Seu produto final ficou conhecido como o "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova", na qual se fixavam os princípios a serem inseridos na Constituição de 1934 (relativo ao Plano Nacional de Educação). De acordo com o Manifesto, deveria-se criar universidades públicas no país dedicadas à Pesquisa, Ensino e atividades de Extenção Universitária. Isto vinha de encontro à vontade de gerar auto-suficiência no tocante à ciência brasileira.

Durante a ditadura de Getúlio Vargas, o interventor federal do Estado de São Paulo era Armando de Salles Oliveira. Sua intenção era de criar a Universidade de São Paulo no dia do aniversário da cidade. Para isto, o ano de 1933 foi fundamental nos trabalhos preparatórios. Formou-se, então, uma comissão com o objetivo de elaborar o projeto. Esta comissão era composta de Fernando de Azevedo (redator), Almeida Júnior (professor do Instituto de Educação), Fonseca Teles, Raul Briguet, André Dreúfus, Vicente Ráo, Waldemar Ferreira, Rocha Lima, Agesilan Bittencourt e o jornalista Júlio de Mesquita Filho (dono do jornal O Estado de São Paulo - veículo de comunicação usado para mobilização pública - e cunhado de Armando de Salles Oliveira). O prazo para os trabalhos preparatórios era extremamente curto, mas foi suficiente para lançar o decreto-lei no dia comemorativo do aniversário da cidade. Em seu decreto de fundação, está explícito seu objetivo de contribuir para "a liberdade e a grandeza" da nação. Acrescenta também que "somente por seus institutos de investigação científica de altos estudos, de cultura livre, desinteressada, pode uma nação moderna adquirir a consciência de si mesma, de seus recursos, de seus destinos".

A Universidade agrupou grandes Escolas já existentes, como a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a Escola Politécnica e a Faculdade de Medicina. Também se fundiram à Universidade a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (em Piracicaba), a Faculdade de Medicina Veterinária, o Instituto Biológico, o Instituto de Higiene, o Instituto Butantã, o Instituto Agronômico, o Instituto Astronômico e Geofísico, o Instituto de Radium, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, o Departamento de Assistência Geral a Psicopatas, o Museu Paulista e o Serviço Florestal. Para marco de sua fundação, foi fundada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), o coração da USP. Foi a terceira universidade criada no país, sendo a primeira a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em seguida a de Minas Gerais. Aliás, até a fundação da primeira universidade brasileira (nos anos de 1930), só o Paraguai e o Brasil não tinham uma universidade pública. Graças a USP e as outras universidades públicas brasileiras, este atraso foi ajustado.

    
Os integrantes da missão estrangeira praticamente fundaram a FFLCH em 1934, como
o sociólogo Roger Bastide, o historiador Fernand Paul Braudel e o antropólogo Claude Lévi-Strauss. Abaixo, todos os membros da missão.

Por ausência de professores da área de humanas, a partir de 1934 chega ao Brasil inúmeros jovens europeus, com muitos diplomas e pouca experiência. Conhecidos como a "missão estrangeira", são a base de muitos dos avanços obtidos pela Universidade. Vindos da França, Alemanha, Itália e Portugal, hoje são tidos como ilustres pensadores, como o caso do antropólogo Claude Lévi-Strauss, ou ainda dos sociólogos Roger Bastide e Paul-Arbousse Bastide, dos geógrafos Pierre Monbeig e Pierre Deffontaine, do filólogo L. Garric e do historiador Fernand Paul Braudel.

A aula inaugural foi em 11 de março de 1935, no teatro da Faculdade de Medicina, na avenida Dr. Arnaldo. Em 1938, a USP tinha 2345 estudantes. Enquanto o campus era construído na antiga Fazenda Butantã, grande parte dos cursos (incluindo a Faculdade de Filosofia) ficou abrigada no edifício da rua Maria Antônia (em frente ao Mackenzie). As obras duraram de 1944 até meados de 1970 (quando a Universidade ganhou "forma"), por problemas financeiros. O primeiro prédio a ser construído foi o Instituto de Pesquisas Tecnológicas.


Famoso conflito entre alunos da USP e da Mackenzie, na rua Maria Antonia (vila Buarque), em 1949.

Em 1948 foram fundadas Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (proveniente de um curso da Escola Politécnica) e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, tendo seguida a expansão para o interior do Estado em São Carlos, Bauru e Pirassununga (além de Piracicaba, primeira unidade, fundada em 1901). Em 1959 houveram mais de sete mil inscritos ao vestibular, sendo aprovados apenas dois mil, inclusive com sobra de vagas. A Universidade alegou desnível entre o curso secundário e o superior.

 
   
Os campi do interior do Estado, acima Ribeirão Preto e São Carlos, abaixo Pirassununga, Piracicaba e Bauru.

Armando de Salles Oliveira e a Ditadura de Getúlio Vargas

Armando de Salles Oliveira foi o primeiro a receber o título de doutor honoris causa, em 15 de Outubro de 1934, assim como o secretário da Educação Christiano Altenfelder Silva e o jornalista Júlio de Mesquita Filho. Armando, eleito governador do Estado de São Paulo pelo voto indireto da Assembléia, se candidata à sucessão de Getúlio Vargas pela presidência da República, pela legenda do Partido Constitucionalista, mas sua tentativa foi frustrada em 10 de Novembro de 1935, com a implementação do Estado Novo. Por ser oposição à Vargas, foi preso, transferido para Minas Gerais e depois exilado para a França, em 3 de Novembro de 1938. Só retornou ao país gravemente doente e, em 17 de Maio de 1945, veio a falecer.


Armando de Salles Oliveira.

Em sua homenagem, Jânio Quadros, então governador do Estado em 28 de Agosto de 1956, batizou o campus universitário de São Paulo de CUASO - Campus Universitário Armando de Salles Oliveira.

Nova Ditadura contra o Conhecimento


A Universidade de São Paulo era perigosa: pensamento crítico contra os militares.

Durante o Regime Militar, mais uma vez a USP (assim como todas as Universidades públicas brasileiras) foi foco de atenção, sob suspeita de ser o "berço subversivo" da oposição ao Regime. A Universidade sempre havia sido palco de manifestações contra o governo e, a partir de 1964, vários professores foram aposentados compulsoriamente, sem direito à qualquer indenização, devido à sua posição política (como o sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, o economista Paul Singer e o arquiteto Vilanova Artigas). Estes eram substituídos prematuramente por jovens professores de direita só possível por ser abolido o sistema de cátedras em 1969 (de origem imperial, que dava sumo poderes aos professores com mais tempo de Universidade).

Houveram invasões à Reitoria e ao CRUSP (Conjunto Residencial da USP), cenas de tanques de guerra circulando pelo campus, o que fez da Universidade um cenário importante de resistência durante os "anos de chumbo". A visão dos alunos era de que - mesmo que todo o país tombe às armas, a USP ainda seria um centro de resistência. Durante os anos de 1970, a antiga Faculdade de Filosofia foi desmembrada.

 
O CRUSP durante a ditadura militar: resistência.

Em 17 de Março de 1973, um sábado, o aluno da Geologia Alexandre Vanucchi Leme, de 22 anos, foi capturado pela Polícia Militar. Sem ninguém saber direito onde ou como, a única coisa que se sabe hoje é que no mesmo dia, pouco antes das 19 horas, seu corpo tinha dado entrada no Instituto Médicio Legal. De acordo com os relatórios do Regime, Alexandre (também conhecido como Minhoca) foi atropelado por um caminhão numa tentativa de fuga da polícia, sendo enterrado em cova rasa como indigente. 70 dias após o ocorrido, em 26 de Maio, foi realizado em sua homenagem uma apresentação de Gilberto Gil, onde ele cantou pela primeira vez em público a música "Cálice", de sua autoria juntamente com Chico Buarque de Holanda. Esta música já havia sido proibida em um festival meses antes, sendo cortados os microfones de Gil. A apresentação estava prevista para ter 30 minutos de duração, mas em decorrência da morte de Alexandre Vanucchi Leme e dos milhares compondo a platéia, o show durou três horas. O apoio da sociedade após a morte do "Minhoca" renovou o fôlego da esquerda e dos movimentos de massa, que até então se diluíam em grupos clandestinos, tendo seus líderes deportados. A opinião pública e entidades da sociedade civil começam a se sensibilizar com a causa, principalmente pelos estudantes não pregarem a luta armada como defesa. Em 26 de Março de 1976, o DCE da USP foi batizado com o nome de Alexandre Vanucchi Leme.

Outro dos perseguidos pelo Regime, o jornalista do Estado de São Paulo, filósofo formado pela USP e professor da ECA, Vladimir Herzog, também conhecido pelos amigos como "Vlado", foi preso e torturado até as últimas conseqüências, falecendo durante a tortura em 25 de Outubro de 1975, dentro de um prédio usado pelo DOI - Destacamento de Operações Internas. O exército, sem saber o que fazer, forjou provas e divulgou uma foto em que Vladimir se suicida, enforcado em sua cela. A prova do exército foi tão mal forjada que é possível reparar que o suicída se enforcou "ajoelhado". Após este caso, a insatisfação contra o Regime ampliou-se em muito, principalmente entre a Imprensa. Sua cerimônia ecumênica foi na Catedral da Sé, que permaneceu lotada por cinco mil pessoas durante toda a celebração, assim como a praça da Sé. Vladimir Herzog foi considerado pelos relatórios militares integrante da KGB. De acordo com seus amigos, Vlado gostava apenas de teatro, cinema e ópera, e ser considerado como subversivo da milícia secreta soviética serve apenas de base para um roteiro de ficção de extremo mau gosto.

 
   
O estudante Vladimir Herzog, símbolo da resistência ao regime ditatorial, em prova forjada de seu suicídio e, abaixo, sua missa ecumênica, que levou mais de 5000 pessoas à praça da Sé, entre amigos e insatisfeitos com os "anos de chumbo".

Ao lado da Reitoria, havia um escritório de segurança do governo militar, onde seis a dez pessoas trabalhavam (comandadas pelo general Franco), capacitados para fazer a triagem ideológica de professores e funcionários a serem contratados pela Universidade. Esta sala funcionou até o início dos anos 1980, só desativada por causa da abertura política com o fim da ditadura.


Estudantes contra a ditadura, no Largo São Francisco e visita do general Emílio Garrastazzu Médici e Delfim Neto à FEA.

Avanços obtidos pela USP

Em 1968, o professor da Faculdade de Medicina Euryclides Zerbini realizou o primeiro transplante de coração da América Latina. A Medicina também realizou os primeiros transplantes de fígado e rim da América Latina. Em 1972, a Escola Politécnica constrói o primeiro computador brasileiro, apelidado de Patinho Feio. Em novembro deste mesmo ano, o Instituto de Ciências Biomédicas inaugurou o primeiro laboratório do país com nível de biossegurança 3 (necessário para o estudo de bactérias e vírus de alto risco). Dentro da USP foi criado também o primeiro microscópio óptico brasileiro e o relógio atômico (executado no campus de São Carlos, tem atraso de 1 segundo a cada trinta mil anos). Nos anos de 1950, no campus de Piracicaba, foi obtida a adaptação de hortaliças européias para o clima tropical brasileiro, como a cenoura e a alface (graças a isto, hoje o custo destes vegetais permite à população economicamente pobre de ter uma melhor alimentação). O Instituto de Pesquisas Tecnológicas colaborou para o Brasil tornar-se uma potência na indústria do aço. Uma de suas últimas contribuições para o conhecimento da humanidade foi o mapeamento completo do genoma da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da doença que ataca os laranjais (em especial na região do Estado de São Paulo) e gera prejuízos imensos. Tal avanço deixa "o Brasil entre as potências genéticas do planeta", de acordo com o jornal francês Le Fígaro, além de capacitar mais de 200 cientistas numa área em plena expansão de conhecimento.

Dentro da área de humanas, a Universidade faz destaque para a produção de grandes pensadores, como o literato Antonio Candido de Mello e Souza, o dramaturgo Décio de Almeida Prado, o cineasta Paulo Emílio Salles Gomes, ou ainda o antropólogo Ruy Coelho. Seus seguidores, não menos importantes, também elevaram o nome da Universidade, como os literatos Roberto Schwartz e Davi Arrigucci Jr. e o cineasta Ismail Xavier. Ainda temos o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, o economista Paul Singer, o filósofo José Arthur Giannotti, o sociólogo Florestan Fernandes, os geógrafos Milton Santos e Aziz Ab'Saber, os filósofos Paulo Arantes, Marilena Chauí e Renato Janine Ribeiro, os juristas Miguel Reale, Dalmo Dallari e Fábio Konder Comparato, em categorias que pode ser chamadas de ilustres.O pensamento "uspiano" procura estabelecer pontes entre todas estas áreas e a sociedade de onde emergem, deixando de lado a adoração da estética e do formalismo em nome da investigação estrutural do conhecimento.

Graças ao campus de São Paulo, pode-se 143 espécies de aves, 133 de abelhas, 250 de borboletas, 12 de moluscos e 90 de árvores na maior mancha urbana da América Latina. Em 1994, com 60 anos, a USP formava metade dos doutores do país, hoje em dia formando mais de dois mil doutores ao ano (a segunda Universidade em doutores formados no mundo, da Califórnia-Berkeley, forma quase 800 ao ano). São 4 milhões e meio de livros em suas bibliotecas, 189 cursos de graduação, 267 de mestrado e 252 de doutorado. Responsável por 30% da produção científica brasileira, sendo que possui 1,4% das publicações científicas e culturais de todo o mundo. Seu orçamento hoje é de 1,6 bilhão de Reais anuais. Formou 11 presidentes, 9 da Faculdade de Direito do Largo São Francico.

Novos rumos

Cerca de cem mil pessoas circulam hoje em dia pelo campus de São Paulo. Com 68 unidades (entre escolas, faculdades e institutos) e mais de 70 mil alunos (entre graduação e pós), quase 5 mil professores e quase 15 mil funcionários não-docentes, a Universidade quer chegar em 2005 com dez mil vagas na capital (hoje conta com mais de sete mil). Um novo campus na zona leste pretende lançar a USP em um trecho da cidade onde residem mais de quatro milhões de habitantes. Seu início está previsto para Janeiro de 2005, no Parque Ecológico do Tietê, com 1,25 milhão de metros quadrados de área, que irá oferecer no início do próximo ano mil vagas e novas reformulações no trânsito paulistano.

A USP tem grandes desafios pela frente: na sua busca por ampliar as vagas, não se deve deixar de lado a qualidade conquistada. Laboratórios, computadores, livros e inúmeros outros materiais de apoio ao aluno devem se ampliar conjuntamente. Só assim se manterá a defesa por uma Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade. Para todos.

© Revista Eletrônica de Ciências - Número 23 - Janeiro de 2004.