| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos, . | Número 23, Janeiro de 2004 | Artigo |
Após o
término da Revolução Constitucionalista de 1932, o
Governo de São Paulo, derrotado pelas tropas Federais, sentiu a
necessidade de "garantir sua
grandeza", desta vez pelo conhecimento e pela força de sua
cultura. Com estes objetivos, foi fundada em 25 de Janeiro de 1934 a
Universidade de São Paulo. Seu brasão é o registro
desta filosofia: "Scientia
Vinces"
(do latim, "Pela ciência, vencerás"). Conheça um
pouco da história da maior Universidade da América Latina.

Logo após o término da Revolução Constitucionalista, aconteceu no Rio de Janeiro a 5ª Conferência Nacional de Educação. Seu produto final ficou conhecido como o "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova", na qual se fixavam os princípios a serem inseridos na Constituição de 1934 (relativo ao Plano Nacional de Educação). De acordo com o Manifesto, deveria-se criar universidades públicas no país dedicadas à Pesquisa, Ensino e atividades de Extenção Universitária. Isto vinha de encontro à vontade de gerar auto-suficiência no tocante à ciência brasileira.
Durante a
ditadura de Getúlio Vargas, o
interventor federal do Estado de São Paulo era Armando de Salles
Oliveira. Sua intenção era de criar a Universidade de
São Paulo no dia
do aniversário da cidade. Para isto, o ano de 1933 foi
fundamental nos
trabalhos preparatórios. Formou-se, então, uma
comissão com o objetivo de elaborar o projeto. Esta
comissão era composta de Fernando de Azevedo (redator), Almeida
Júnior (professor do Instituto de Educação),
Fonseca Teles, Raul Briguet, André Dreúfus, Vicente
Ráo, Waldemar Ferreira, Rocha Lima, Agesilan Bittencourt e o
jornalista Júlio de Mesquita Filho (dono do jornal O Estado de
São Paulo - veículo de comunicação
usado para mobilização pública - e cunhado de
Armando de Salles Oliveira). O
prazo para os trabalhos preparatórios era extremamente curto,
mas foi suficiente para lançar o decreto-lei no dia comemorativo
do aniversário da cidade. Em seu decreto de
fundação, está explícito seu objetivo de
contribuir para "a liberdade e a grandeza" da nação.
Acrescenta também que "somente por seus institutos de
investigação científica de altos estudos, de
cultura livre, desinteressada, pode uma nação moderna
adquirir a consciência de si mesma, de seus recursos, de seus
destinos".
A Universidade agrupou grandes Escolas já existentes, como a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a Escola Politécnica e a Faculdade de Medicina. Também se fundiram à Universidade a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (em Piracicaba), a Faculdade de Medicina Veterinária, o Instituto Biológico, o Instituto de Higiene, o Instituto Butantã, o Instituto Agronômico, o Instituto Astronômico e Geofísico, o Instituto de Radium, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, o Departamento de Assistência Geral a Psicopatas, o Museu Paulista e o Serviço Florestal. Para marco de sua fundação, foi fundada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), o coração da USP. Foi a terceira universidade criada no país, sendo a primeira a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em seguida a de Minas Gerais. Aliás, até a fundação da primeira universidade brasileira (nos anos de 1930), só o Paraguai e o Brasil não tinham uma universidade pública. Graças a USP e as outras universidades públicas brasileiras, este atraso foi ajustado.


Por
ausência de professores da área de humanas, a partir de
1934 chega ao Brasil
inúmeros jovens europeus, com muitos diplomas e pouca
experiência. Conhecidos como a "missão estrangeira",
são a base de muitos dos avanços obtidos pela
Universidade. Vindos da França, Alemanha, Itália e
Portugal, hoje são tidos como ilustres pensadores, como o caso
do antropólogo Claude Lévi-Strauss, ou ainda dos
sociólogos Roger Bastide e Paul-Arbousse Bastide, dos
geógrafos Pierre Monbeig e Pierre Deffontaine, do
filólogo L. Garric e do historiador Fernand Paul Braudel.
A aula inaugural foi em 11 de março de 1935, no teatro da Faculdade de Medicina, na avenida Dr. Arnaldo. Em 1938, a USP tinha 2345 estudantes. Enquanto o campus era construído na antiga Fazenda Butantã, grande parte dos cursos (incluindo a Faculdade de Filosofia) ficou abrigada no edifício da rua Maria Antônia (em frente ao Mackenzie). As obras duraram de 1944 até meados de 1970 (quando a Universidade ganhou "forma"), por problemas financeiros. O primeiro prédio a ser construído foi o Instituto de Pesquisas Tecnológicas.

Em 1948 foram
fundadas Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (proveniente de um curso
da Escola Politécnica) e a Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto, tendo seguida a expansão para o interior
do Estado em São Carlos, Bauru e Pirassununga (além de
Piracicaba, primeira unidade, fundada em 1901). Em 1959 houveram mais
de sete mil inscritos ao
vestibular, sendo aprovados apenas dois mil, inclusive com sobra de
vagas. A Universidade alegou desnível entre o curso
secundário e o superior.


Armando de Salles Oliveira foi o primeiro a receber o título de doutor honoris causa, em 15 de Outubro de 1934, assim como o secretário da Educação Christiano Altenfelder Silva e o jornalista Júlio de Mesquita Filho. Armando, eleito governador do Estado de São Paulo pelo voto indireto da Assembléia, se candidata à sucessão de Getúlio Vargas pela presidência da República, pela legenda do Partido Constitucionalista, mas sua tentativa foi frustrada em 10 de Novembro de 1935, com a implementação do Estado Novo. Por ser oposição à Vargas, foi preso, transferido para Minas Gerais e depois exilado para a França, em 3 de Novembro de 1938. Só retornou ao país gravemente doente e, em 17 de Maio de 1945, veio a falecer.

Em sua homenagem,
Jânio Quadros, então governador do Estado em 28 de Agosto
de 1956, batizou o campus
universitário de São Paulo de CUASO - Campus Universitário Armando
de Salles Oliveira.

Durante o
Regime Militar, mais uma vez a USP (assim como todas as Universidades
públicas brasileiras) foi foco de atenção, sob
suspeita de ser o "berço subversivo" da oposição
ao Regime. A Universidade sempre havia sido palco de
manifestações contra o governo e, a partir de 1964,
vários professores foram aposentados compulsoriamente, sem
direito à qualquer indenização, devido à
sua posição política (como o sociólogo e
ex-presidente da
República Fernando Henrique Cardoso, o economista Paul Singer e
o arquiteto Vilanova
Artigas). Estes eram substituídos prematuramente por jovens
professores de direita só possível por ser abolido o
sistema de cátedras em 1969 (de origem imperial,
que dava sumo poderes
aos professores com mais tempo de Universidade).
Houveram
invasões à Reitoria e ao CRUSP (Conjunto Residencial da
USP), cenas de tanques de guerra circulando pelo campus, o que fez da Universidade
um cenário importante de resistência durante os "anos de
chumbo". A visão dos alunos era de que - mesmo que todo o
país tombe às armas, a USP ainda seria um centro de
resistência. Durante os
anos de 1970, a antiga Faculdade de Filosofia foi desmembrada.

Em 17 de Março de 1973, um sábado, o aluno da Geologia Alexandre Vanucchi Leme, de 22 anos, foi capturado pela Polícia Militar. Sem ninguém saber direito onde ou como, a única coisa que se sabe hoje é que no mesmo dia, pouco antes das 19 horas, seu corpo tinha dado entrada no Instituto Médicio Legal. De acordo com os relatórios do Regime, Alexandre (também conhecido como Minhoca) foi atropelado por um caminhão numa tentativa de fuga da polícia, sendo enterrado em cova rasa como indigente. 70 dias após o ocorrido, em 26 de Maio, foi realizado em sua homenagem uma apresentação de Gilberto Gil, onde ele cantou pela primeira vez em público a música "Cálice", de sua autoria juntamente com Chico Buarque de Holanda. Esta música já havia sido proibida em um festival meses antes, sendo cortados os microfones de Gil. A apresentação estava prevista para ter 30 minutos de duração, mas em decorrência da morte de Alexandre Vanucchi Leme e dos milhares compondo a platéia, o show durou três horas. O apoio da sociedade após a morte do "Minhoca" renovou o fôlego da esquerda e dos movimentos de massa, que até então se diluíam em grupos clandestinos, tendo seus líderes deportados. A opinião pública e entidades da sociedade civil começam a se sensibilizar com a causa, principalmente pelos estudantes não pregarem a luta armada como defesa. Em 26 de Março de 1976, o DCE da USP foi batizado com o nome de Alexandre Vanucchi Leme.
Outro dos
perseguidos pelo Regime, o jornalista do Estado de São Paulo,
filósofo formado pela USP e professor da ECA, Vladimir Herzog,
também conhecido
pelos amigos como "Vlado", foi preso e torturado até as
últimas conseqüências, falecendo durante a tortura em
25 de Outubro de 1975, dentro de um prédio usado pelo DOI -
Destacamento de Operações Internas. O exército,
sem saber o que fazer, forjou provas e divulgou uma foto em que
Vladimir se suicida,
enforcado em sua cela. A prova do exército foi tão mal
forjada que é possível reparar que o suicída se
enforcou "ajoelhado". Após este caso, a
insatisfação contra o Regime ampliou-se em muito,
principalmente entre a Imprensa. Sua cerimônia ecumênica
foi na Catedral da Sé, que permaneceu lotada por cinco mil
pessoas durante toda a celebração, assim como a
praça da Sé. Vladimir Herzog foi considerado pelos
relatórios militares integrante da KGB. De acordo com seus
amigos, Vlado gostava apenas de teatro, cinema e ópera, e ser
considerado como subversivo da milícia secreta
soviética serve apenas de base para um roteiro de
ficção de extremo mau gosto.


Ao lado da
Reitoria, havia um escritório de segurança do governo
militar, onde seis a dez pessoas trabalhavam (comandadas pelo general
Franco), capacitados para fazer a triagem ideológica de
professores e funcionários a serem contratados pela
Universidade. Esta sala funcionou até o início dos anos
1980, só desativada por causa da abertura política com o
fim da ditadura.

Dentro da
área de humanas, a Universidade faz destaque para a
produção de grandes pensadores, como o literato Antonio
Candido de Mello e Souza, o dramaturgo Décio de Almeida Prado, o
cineasta Paulo Emílio Salles Gomes, ou ainda o
antropólogo Ruy Coelho. Seus seguidores, não menos
importantes, também elevaram o nome da Universidade, como
os literatos Roberto Schwartz e Davi Arrigucci Jr. e o cineasta Ismail
Xavier. Ainda temos o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, o
economista Paul
Singer, o filósofo José Arthur Giannotti, o
sociólogo Florestan Fernandes, os geógrafos Milton
Santos e Aziz Ab'Saber, os filósofos Paulo Arantes, Marilena
Chauí e Renato
Janine Ribeiro, os juristas Miguel Reale, Dalmo Dallari e Fábio
Konder
Comparato, em categorias que pode ser chamadas de ilustres.O pensamento
"uspiano" procura estabelecer pontes entre todas estas áreas e a
sociedade de onde emergem, deixando de lado a adoração da
estética e do formalismo em nome da investigação
estrutural do conhecimento.
Graças ao campus de São Paulo, pode-se 143 espécies de aves, 133 de abelhas, 250 de borboletas, 12 de moluscos e 90 de árvores na maior mancha urbana da América Latina. Em 1994, com 60 anos, a USP formava metade dos doutores do país, hoje em dia formando mais de dois mil doutores ao ano (a segunda Universidade em doutores formados no mundo, da Califórnia-Berkeley, forma quase 800 ao ano). São 4 milhões e meio de livros em suas bibliotecas, 189 cursos de graduação, 267 de mestrado e 252 de doutorado. Responsável por 30% da produção científica brasileira, sendo que possui 1,4% das publicações científicas e culturais de todo o mundo. Seu orçamento hoje é de 1,6 bilhão de Reais anuais. Formou 11 presidentes, 9 da Faculdade de Direito do Largo São Francico.
A USP tem
grandes desafios pela frente: na sua busca por ampliar as vagas,
não se deve deixar de lado a qualidade conquistada.
Laboratórios, computadores, livros e inúmeros outros
materiais de apoio ao aluno devem se ampliar conjuntamente. Só
assim se manterá a defesa por uma Universidade Pública,
Gratuita e de Qualidade. Para todos.
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